DRAMATURGIA BRASILEIRA,
A programação de férias do Centro Cultural São Paulo apresenta, até meados de fevereiro, a peça Navalha na carne, texto de Plínio Marcos, direção de Pedro Granato, com Gero Camilo, Paula Cohen e Gustavo Machado no elenco.
Escrito nos meados dos anos sessenta e proibido pela censura à época, o texto põe em foco um recorte na vida de três personagens: o cafetão Vado, a prostituta Neusa Suely e o homossexual Veludo.
Entre acusações mútuas, disputas desesperadas por um "toco" de maconha e a paga por alguns instantes de sexo, que, no fundo, supriria uma vida de solidão e miséria, Vado, Neusa e Veludo expõem suas angústias, aporrinhando-se mutuamente, tornando insuportável uma vida que já é difícil, pela pobreza, exploração e discriminação a que são submetidos, nesse cenário de decadência e agressões físicas e verbais.
A montagem, como tantas outras em que o autor é encenado, mantém-se fiel à sua dramaturgia, orientando-se por uma estética realista, embora se promova a quebra da quarta parede em busca de alguma intimidade com o espectador. O que se nota é a dificuldade de muitos diretores em explorar a polissemia textual deste dramaturgo santista, não ousando "relê-lo".
A opção da talentosa atriz Paula Cohen por uma linha interpretativa em que busca uma Neusa Suely alheada ao submundo de exploração em que vive, resulta em uma comicidade forçada, causando-nos estranhamento, que, paradoxalmente, não provoca reflexão, nem mesmo em raro momento de lucidez da personagem, quando nos olha e olha para dentro de si se perguntando e nos perguntando se aquela é mesmo uma vida de gente.
O destaque fica mesmo para a atuação de Gero Camilo, ao dar vida a um Veludo espirituoso, engraçado e de inabalável auto-estima.
Vá lá, confira você mesmo esse evento e construa a sua leitura.
Bom espetáculo.
Por Eraldo Maia

